« | »

o pobre, o otário e o hospital

Leonardo | 13 Maio, 2008 13:59


Foi assim: um pobre coitado, um menino de 16 anos, favelado e eleito desmerecido pela sociedade caiu duro no chão de uma vezada só. O colega que estava ao lado começou a rir e a puxá-lo pelo braço, mandando que ele se levantasse. Em segundos juntou multidão, uns rindo, outros dizendo "ih, morreu", outros com os olhos arregalados e perplexos sem dizer nada e o único denominador comum era a falta de atitude.

 

Mandei o colega soltar o menino, repousei a cabeça dele na grama e estiquei suas pernas. Coloquei meus dedos em seu pescoço em busca de pulso que, felizmente, estava lá, não tão forte quanto se espera de um garoto desta idade, mas estava. O corpo não estava rígido e nem havia contrações. Levantei-lhe a pestana que revelou a branquidão do globo ocular e uma íris escondida em pequenos espasmos. Falei ao seu colega: - Ele desmaiou. Deve estar desidratado. Chame um policial.

 

Nesse momento eu já tinha isolado a multidão do meu thinking process e segundos depois, do mesmo jeito que deu tilt, o cérebro do menino finalizou o reboot e ele acordou sem entender nada. Quis se levantar logo, mas estava groggy então falei para ele ficar queito um pouco. No meio do povo havia um vendedor ambulante com uma caixa de isopor, virei-me para ele e disse: - Uma água. Para minha surpresa, vi no rosto dele um sinal de interrogação enquanto ele se debatia entre o dever moral de ajudar e a mesquinharia egoísta que perguntava quem iria pagar pela garrafa de água. Perdi a paciência, engrossei a voz e mandei: - Me dê uma água AGORA! O bobo que não era tão bobo assim, tratou de me dar a garrafa de água.

 

Abri a garrafa, ajudei o menino a se levantar e ofereci a ele. Ele deu um gole e me devolveu. Eu falei - Não. Beba tudo, mas beba devagar. Levei o menino para a sombra, fiz com que se sentasse e repeti o comando. Chamei o ambulante, paguei pela água e pensei: mission accomplished. Fui cuidar da minha vida.

 

À noite, em casa tive uma diarréia. No dia seguinte, mesmo com hidratação intensa e soro caseiro, ela não cedia. Noite difícil, manhã difícil, tarde difícil. Entrando no terceiro dia de diarréia e no ápice de minha fraqueza, não teve jeito, tive que procurar um hospital. Que hospital? Para onde ir? Pior que ficar doente é ficar doente sozinho e não ter a quem recorrer, numa cidade desconhecida, sem amigos, sem referências.

 

Na tarde anterior, a Iara havia deixado comigo o link do Hospital Memorial São José, caso eu viesse a precisar. Liguei para lá, pedi orientação, perguntei se aceitavam American Express, chamei um táxi e segui para o serviço de urgência às duas da manhã. Quando fui atendido, o médico fez as perguntas básicas mas não se importou muito com as respostas. Cinco minutos de conversa, ele me botou na cama de exame e apalpou minha barriga cinco vezes, num total de talvez 7 segundos. Mandou-me botar a língua prá fora e vendo minha língua ressecada, esbranquiçada e a saliva grossa diagnosticou: - "É, você está desidratado." Fuck that!!!! Pensei. Faz 3 dias que eu SEI que estou desidratado, a questão é decidir o que fazer a respeito, o que, por minha experiência, seria soro intravenoso. O médico me disse: - "É uma virose. Está pegando muita gente. Você provavelmente pegou do menino que socorreu."

 

Na enfermaria, já no segundo vasilhame de soro, chamei a enfermeira e disse-lhe: - Preciso ir ao banheiro urinar. Ao que ouvi: - "Pode ir." De novo... FUCK THAT!!! Não estou na primeira série pedindo autorização da tia para ir ao banheiro, estou pedindo ajuda! Queria que ela me trouxesse um suporte móvel para o soro, mas ela simplesmente deu às costas e desapareceu. Tirei o soro do suporte fixo e pensei, bem, isso aqui é uma enfermaria de um hospital de, supostamente, qualidade. O banheiro deve ter suporte no teto para pendurar o soro. Chegando lá, advinhe?!?!?! Daí comecei a operação, não tinha jeito. A única forma de ter uma mão livre era segurando o vasilhame com o a mão do braço no qual o soro havia sido aplicado. Obviamente, a implacável gravidade fazia com que meu sangue corresse para o soro ao invés do contrário. Inferno! Xinguei muito na minha cabeça. Paisinho de merda! Mas também, o que esperar dessa gente que tem their noses up high in the skies and their brains planted in their butts?? Resultado: botei uns 100 ml de sangue no vasilhame enquanto mijava que depois retornaram graciosamente ao meu sistema sanguíneo quando voltei para minha cama. Very amusing... :S

 

Enquanto ainda urinava, olhei para o chão e vi lá jogado entre o vaso e a pia um mictório para enfermos. Quer dizer que se eu não estivesse bem e não conseguisse me levantar a enfermeira me levaria aquele lixo jogado no chão do banheiro para eu enfiar meu pinto e urinar?????!!!! Se você não se deu ao trabalho de clicar no link do hospital, clique para ver que não é um posto de saúde no meio de uma favela! PUTA QUE PARIU!!!

 

Horas depois, de alta, fui pagar com meu Amex e a moça me disse: - "Aceitamos Visa, Mastercard, Dinners e Hipercard (que pôrra é essa de Hipercard??)." Pensei: por que será que não estou surpreso? Paguei com meu Visa e fui-me daquele lixo.

 

Moral da história:

  • se for prestar socorro a alguém, prepare-se para se estrepar no processo
  • doente, fudido. doente sozinho, fudido em dobro
  • as pessoas passam, as instituições ficam, mas elas sempre terão a cara das pessoas que as compõem

 

 
[Responder]

Cruz credo!!!
Que situação hein!
Meu bem como vc sabendo que já estava desitratado nao tomou uma providência? um soro caseiro, água de coco, suco de melancia... pq nao deu um grito pra cá? Esqueceu da amiga nutri?
Agora vou te contar realmente temos que rezar pra não cair num hospital, mesmo PAGANDO a situação é complicada.
Já tá melhor?
Afinal como chegou nesse ponto de ficar desitratado? Ah já sei, anda esquecendo até de beber água...
Lío Lío Lío, se cuide pra qdo chegar a hora de você ir embora estar bem, imagina estar doente e ter que ficar por aqui??? Já até imagino oq vc pensou e/ou respondeu, portanto, se cuida!!!
Bju

Maybe | 14/05/2008, 15:07

 
[Responder]

Bah, Léo...
Que coisa!
Lamento tudo isso... E me dá uma tristeza maior, ainda, constatar a tua (justa) revolta com este país...
Te cuida!

Ana | 19/05/2008, 13:52

 
[Responder]

Léo, sinto muitíssimo tudo isso. Se ficar sozinho já é barra, debilitado então, nem se fala. Mas, pelamordedeus, dá próxima (que espero não haja) não espere tanto tempo, meu filho. Numa dessas vc se complica de verdade, num país onde até as coisas mais simples podem virar tragédia, infelizmente.
Não dei notícias sobre o stock image, desculpe, peguei alguns trabalhos e meu tempo está dividido entre eles e a família. Em julho vou tirar férias e prometi a mim mesma dedicar tempo a essa questão. Antes disso, vai ser difícil!

Se cuida por aí, cara. E, se ninguém te agradeceu por ter ajudado o menino, eu o faço. Ajudar ao próximo é uma atitude digna de louvor nos tempos atuais. Não se deixe contaminar pelos outros, faça o que acha certo, mesmo ganhando uma virose de brinde.

:o)

Elis | 24/05/2008, 23:26

 
[Responder]

Leo, pra variar, morri de rir. Desculpe a honestidade. Mas olhando sob meu ponto de vista, de alguém que acabou de precisar de ajuda, e olhando sob o seu ponto de vista de pessoa que ajuda sem analisar "quem é a pessoa, ela é digna de minha ajuda?", diria que toda ajuda vale a pena. Esta valeu, com toda a certeza, apesar dos pesares. Agora vc já deve estar pronto pra outra e 100% de novo, correto? Beijo meu e boa noite!

Sandra | 14/07/2008, 18:35

Comentar

Tópico

Texto


:);):S:(:'(:D:o:#:-#^o)(6):$:P:|(A)8o|<:o)8-|(H)
Seu nome

Seu endereço de e-mail (se houver)

Sua página pessoal (se houver)



authimage


  Designed by Leonardo :: Powered by LifeType