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hellcife 1

Leonardo | 28 Janeiro, 2008 10:31


Aeroporto de Recife, desembarque, depois de 24 horas de vôos, lay-overs e alfândega chata onde tive que provar que meu equipamento de informática é de uso pessoal e profissional para evitar o pagamento de alguns milhares de dólares em impostos.

 



Duas malas médias para grandes, bolsa à tira-colo e duas caixas gigantes (para os padrões de bagagem aérea acompanhada), pesadas e frágeis com um conteúdo equivalente a aproximadamente US$15,000 em equipamento de trabalho. Digo ao carregador que me atendia com aqueles karts especiais que preciso de um táxi e que gostaria que fosse pré-pago e de cooperativa. Ele me leva para o stand apropriado e a recepcionista me atende em SR=SNw (*)
 
- prá onde?
- hmmm... boa tarde??
- ahhh... boa tarde
- eu gostaria de um táxi para Boa Viagem, o endereço é este aqui -
e a entrego um cartão com o endereço
- é zona 2 ou 3?
- perdão, como?

em volume mais alto, típico das pessoas que não entendem a diferença entre não ser compreendido e não ser escutado:
- é zona 2 ou 3??
- como assim? a que zona você se refere?
- preciso saber em que zona fica para determinar o preço
- hmmm... okay... mas não é exatamente este o seu trabalho? receber o cliente, verificar o destino, fazer a cobrança apropriada e solicitar o táxi?


Com a cara emburrada pelo leve puxão de orelha, ela pega o radinho CB e conversa com alguém que lhe informa que o tal endereço encontra-se na zona 2. Ela me diz o valor, eu a passo meu cartão de crédito como de praxe. Segundos depois da autorização pela maquineta, a moça recebe uma chamada no RT CB onde é informada que aquele endereço talvez pertencesse finalmente à zona 3, não a 2, mas não havia certeza, e ela (sempre em SR=SNw) conferenciando com sua interlocutora:

- ahhh... mas agora já passei o cartão do cliente (blá blá blá...)

um ano de blá blá blás pelo rádio mais tarde, aliás está é uma característica típica daqui que vim a reconhecer com o passar do tempo, dar um valor de tragédia grega a pequenos ridículos inconvenientes corriqueiros do dia-a-dia, eu a interrompo e digo que não há problema, que se valor for outro, pago a diferença em cash para o taxista.

Passada a fase da cobrança, digo à recepcionista que como ela pode ver, preciso de um táxi grande, uma van, ao que ela retruca:

- o senhor mesmo pode escolher o táxi lá fora
- não, não quero sair com este carrinho cheio de bagagens e ter que procurar por um táxi grande lá fora! Se eu quisesse fazer isto teria pego um táxi comum. Por favor, apenas se certifique de que o táxi seja uma van.
- qual o senhor quer? o S, o T, o U, o V, o W, o X, o Y ou o Z?

eu já sem paciência, pensando no tamanho, volume e frequência de merdas similares que me aguardavam no horizonte, respondi:
- não reconheço nenhum nome destes que você falou. Não me interessa o modelo. Tudo o que me importa é que seja uma van! Você sabe o que é uma van, não sabe?

Mais radio chat e finalmente ela me dá um ticket. Malas e caixas acomodadas depois do taxista ter rebatido o banco traseiro, entro, sento-me e afivelo o cinto. Dou o endereço que era um número específico da Av. Boa Viagem, segundo consta a praia urbana mais "in" de Recife e chamada por vários nativos de "reduto nuveau riche" dos recifenses, tal avenida segue por toda a orla e é altamente populada por hotéis e flats. O taxista:
- onde fica?
no meu cérebro ressoa: fucking shit de merde! asshole! mofo! fat fuck! moron! jerk!
- meu senhor, estou fora do brasil há anos, nunca botei os pés no nordeste, sei que esta avenida é famosa, fica na orla, é cheia de hotéis e o senhor que é taxista de cooperativa e busca passageiros no aeroporto todos os dias, vem me perguntar onde fica???
- ah... rebimboca, macaxé, murissoca, macaxeira, tapioca, whatever... eu sei onde fica.


Lá fomos nós e quase lá fui eu direto para o pronto socorro! Sem exageros, meu batimento cardíaco teve inúmeros picos durante o trajeto do aeroporto até o hotel. O carpete do carro no lado passageiro deve ter ficado desgastado com o tanto que pisei no meu freio imaginário!! Como quase todo bom brasileiro, o taxista acreditava que o tamanho do próprio pinto era diretamente proporcional ao quão "hábil" (leia-se, louco) ao volante ele viesse a provar que era. Não vou nem me incomodar em registrar os inúmeros motociclistas que vi descalços e com as "havianas" nas mãos, cortando todo o tráfego ou aos inúmeros pedestres que tinham que correr e pular rua afora para não serem atropelados (inclusive pelo meu taxista) ou àqueles que caminhavam no meio do trânsito como se estivessem indo do quarto para o banheiro. Basta dizer que meu coração disparou tanto quanto no dia em que passeei (é assim que se escreve?) de stock car em Interlagos (como passageiro, óbvio), rasgando a reta a 300 km/h!!

Chegando próximo ao destino, o taxista me pergunta:
- é hotel, é?
- não sei se é hotel ou apart-hotel, não sei o nome, mas o número é esse que lhe passei... olhe... pelo visto estamos chegando... melhor o senhor diminuir a velocidade...

dito e feito! o taxista passa do número sem ver e, espero eu, sem má intenção.
- olhe, é aquele ali atrás que o senhor acabou de passar!
ele bravo, injuriado, puto mesmo me diz:
- ah "minino"!!! por que você não disse que era no "bitclaz" (meaning, beach class)???? Aí, visse... agora vou ter que dar ré nesta merda!

Na porta daquilo que mais tarde descobri se tratar de um apart-hotel, malas descarregadas e devidamente acomodadas no novo kart, o motorista me pede o ticket que a recepcionista havia me passado. Eu entrego e digo:
- olhe, (acho que deveria ter dito "visse" ), minha intenção era lhe dar uma gorjeta de US$2.00 por volume, but all things considered, I'll leave you with a fuck you!

E assim começou minha longa mas distinta lista de desventuras em hellcife. Cômico, se não fosse um pouco trágico.

(*) SR=SNw: Sotaque Recifense = Sotaque Nordestino, whatever. Os recifenses insistem em discernir o sotaque daqui do sotaque dos alagoanos, paraibanos e até bahianos. Para mim que não tenho ouvido treinado nestas matérias, soa tudo a mesma coisa: um intrincado e velocíssimo jogo de idiossincrasias, entonações e erros gramaticais às vezes quase ininteligíveis para mim, mas que aos poucos vou aprendendo.

 
[Responder]

então, bem vindo ao Brasil!
aproveite ;)

Graziana | 29/01/2008, 08:43

 
Cris Guerra [Responder]

Oi, Leo!
Estou me intrometendo,sorry...Li sua mensagem pra Cris e quando vi a sua foto aqui fiquei pensando...Talvez a lembrança seja do Banco Minas Caixa.Da época dos estagiários na Prudente de Morais.Será?
beijos,
Ana Cristina Mansur

Ana Cristina Mansur | 30/01/2008, 00:17

 
[Responder]

Kika, é você?!?!??!! :o

Leonardo | 30/01/2008, 00:53

 
Lamento... [Responder]

E espero que tudo comece a dar super 100% certo e que vc se divirta muuuuito, ainda, por aí!!

Mantenha a calma! E o bom humor!!

Beijooooo!

Ana | 30/01/2008, 22:19

 
[Responder]

Vc é o máximo. Dei ótimas gargalhadas... :-)))))))

Sandra | 01/05/2008, 18:17

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