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Taxista, profissão difícil. Por vezes perigosa, em outras, alegre. Dirigir no trânsito exponencialmente caótico das grandes capitais, especialmente as do Brasil, que exceto a Federal, nunca foram sequer pensadas, quiçá planejadas para o volume sempre crescente de veículos a lhes cortar de um lado a outro.
Com seus rádios e celulares, os táxis tornaram-se uma conveniência de fato. Ainda assim, vez ou outra, podemos contar com a distinta presença do titio Murphy, especialmente quando aquela tromba d'água inesperada cai ou quando saímos de um bar ou boïte e notamos que lá dentro a escuridão era mais intensa do que naquele carpete de estrelas azul já anil... nestas horas, é aquela dificuldade encontrar o amigo taxista! Tais eventos não são aleatórios, entendamo-os e relaxemo-nos. O princípio matemático por detrás dos mesmos é simples: a facilidade de se encontrar um táxi é inversamente proporcional à necessidade de encontrá-lo, ou seja, inversamente proporcional ao nosso grau de alcoolismo, à nossa pressa, à carga da bateria de nosso celular, à torrencialidade da chuva, ao isolamento absoluto onde nosso carro resolve dar pane, etc. Isto tudo para não mencionar aqueles segundos de ilusão, ingenuidade mesmo, quando chegamos a levantar a mão e deixamos nascer um sorriso no rosto ao ver aquele par de faróis se aproximando para tão somente constatar que se tratava de um táxi já ocupado...
Tarefa simples, ou não, quando entramos em um táxi, ou pelo menos eu, quando entro, logo distingo o sujeito que é taxista por profissão daquele que o é por necessidade ou conveniência. Dos garçons, diz-se que aquele bom é o que pressente quando será chamado. Dos taxistas, o bom é aquele que consegue rápida e eficientemente ler seu paciente... erhhh... seu cliente. Aquele que acelera mais quando estou com pressa e não fica "morgando" atrás de ônibus; aquele que só puxa conversa quando mostro-me receptivo e dispara algo mais elaborado que "tem chovido, não é?"; aquele que sabe que não está transportando gado e ao ver-me tranquilo proporciona um rodar suave ao invés de provar o ás que é ao volante metropolitano.
O taxista de verdade, sempre pensei, deve ser um sujeito riquíssimo! Cheio de histórias, estórias e causos. O camarada vive por alguns minutos com seus clientes, uma situação rara em qualquer outra profissão: privacidade, anonimato e descompromisso. Em que outra profissão repete-se tal cenário? Se por muitas vezes um passageiro entra mudo e sai calado, em outras tantas, expõe a seu psicólogo, digo, motorista, as suas aflições e ansiedades, desejos e fantasias, medos e, por que não, mentiras. Ao bom taxista, pouca coisa escapa e seu banco traseiro ou o dianteiro (devidamente reclinado), torna-se um belo divã! Um divã móvel, temporário, escusado, aceitável, laboratorial.
Minha imaginação perdeu a razão de ser. Dia desses, passeando por websites diversos, dei de cara com o Taxitramas que imediatamente capturou meus olhos e cativou minha atenção. Trata-se de um Blog, o Blog do Mauro, um taxista (por profissão) na bela Porto Alegre. Mauro está para Poá, assim como o Analista está para Bagé, tchê!! Agora, não preciso mais imaginar as aventuras e desventuras de um taxista nato, daqueles institivamente versados em Frëud e Yung, que nos abrem o consultório... cough!cough!... o táxi para ir e vir enquanto o taxímetro falha em cobrar a consulta ao restringir-se à corrida. Basta ler as tramas do táxi do Mauro.
Segundo o próprio Mauro, apesar de suas cômicas ou emocionalmente carregadas narrativas, a maior parte das corridas é "sem graça". Inevitavelmente, imaginei-me passageiro em seu táxi. Eu, que aqui no Brasil não mais tenho carro, sou usuário cotidiano deste conveniente serviço quando aterro por estas paragens. Entro no táxi do Mauro e, sem saber do já reconhecido colunista que me conduz, dou um gentil mas distante bom dia e peço a gentileza de levar-me ao meu destino. Diferentemente da maioria dos homens brasileiros, sento-me sempre no banco de trás. De lá, envolvido em meus pensamentos, compromissos ou simplesmente observando os locais e transeuntes pelos quais passo (imaginando o peso ou a leveza da história que cada um deles carrega consigo), meio que alieno-me do espaço imediato ao meu redor. O Mauro, bom taxista que é, lê meus sinais e respeitosamente deixa-me perdido em meu umbigo. Chegando ao destino, pago a corrida, sempre arredondando para cima para facilitar o troco e dar uma pequena gorjeta (mas a verdade mesmo é que sou muito chato e não gosto de carregar moedas!!!). Agradeço e desejo um bom dia, no que sou respondido à altura. Saio do táxi pensando pelo menos o taxista, desta vez, era profissional e o Mauro, "corridinha sem graça, mas pelo menos sobrou uma gorjetinha".
Moral da estória? Assim seguimos nós, alheios ao universo do outro que se encontra ao nosso lado. Há razão, não discordo. Os universos, sempre complexos, às vezes o são de forma feia, chata, tediosa e até irritante. Outras tantas, estamos deixando de nos relacionar com outros universos fantásticos, com os quais fácil e prazerosamente nos identificaríamos. Se ao menos déssemos ao outro, ao dia, à vida o benefício da dúvida... Mas agora não posso, preciso sair. Tem um táxi me esperando lá fora...
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