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a moça enganada

Leonardo | 10 Março, 2005 13:50


Soltou um suspiro baixinho, mais um de vários nos últimos dois meses, tentando dar vazão àquela ansiedade que já nem lhe surpreendia mais, nem lhe desesperava mais e por isto mesmo, pela ausência do pânico trazia um quê de admiração própria, de...auto-estima. Tantas asreviravoltas, tantos planos detalhadamente arquitetados para perdurar por poucos dias apenas, em alguns casos, horas. Quanto desgaste! Seriam os calos da alma a lhe permitir esta tranquilidade de vidro?

Tudo começou há pouco mais de três anos atrás. Vinda do interior, aquela menina bonita transformara-se em uma bela mulher sem perceber, de nome Mara. Apenas deu por sua estonteante beleza depois que começou a reparar nos insistentes assédios, inclusive de algumas mulheres, e os patéticos "Mara-vilhosa" que ouvia com cada vez mais frequência nos momentos de mais audácia daqueles que a conheciam.

Era a ovelha negra de sua família, o que, em seu caso, era um grande negócio já que nascera num lar de idiotas morais e intelectuais. Por sentir-se uma estranha no ninho, tratou de encontrar o seu próprio assim que pode e acabou por alugar um quarto em uma pensão feminina, ou como as residentes e sua senhoria chamavam, uma casa de família para moças. Lá vivia em quase isolamento já que não se dava com as outras "meninas", vazias, fúteis, desinteressantes. Ah... tinha a D. Luíza, exceção marcante que constantemente a surpreendia com seu vasto conhecimento, história de vida e, às vezes, imaturidade do alto de seus 62 anos de virgindade.

Todos os dias Mara seguia para seu tedioso trabalho com pontualidade britânica, para durante o expediente comportar-se com polidez profissional e frieza militar. Trabalhava com informática. Seu cargo nada tinha a ver com suas tarefas diárias. Qual era mesmo seu cargo? Nem sabia mais. Auto-didata, movida pela curiosidade, tornara-se uma usuária avançada de vários programas e passava seus dias gerenciando um banco de dados aqui, arquitentando planilhas e gráficos ali, montando apresentações acolá (o que mais gostava!). Também na empresa não era muito popular, exceto pelos incessantes comentários, invejosos em sua maioria, sobre sua beleza. Os varões viviam a encomendar apresentações em Powerpoint que nunca usariam, apenas para dela desfrutar alguns minutos de companhia e, se tivessem sorte, relances de um sutien que em lorotas de cafezinho tornar-se-iam belos mamilos expostos ao léu.

Mara comovia-se apenas com as artes. Arte das formas, das pinturas, dos desenhos, das palavras, das músicas. Tentou vesitbular para Belas Artes e, um ano depois, para Sociologia, mas as malditas física, química e matemática lhe diziam: não! Lia Maquiavel, Goethe, Dostoievsky, Lya Luft e Drummond entre outros. Apreciava as linhas de Klint e as cores de Frida. Vivia num mundo só dela, compartilhado apenas com as bruxas do sótão de sua infância. Sabia bem que ali, naquele emprego, naquela cidade, naquele país não encontraria felicidade, ou melhor, não encontraria a si mesma.

A vida foi escorrendo, às vezes em gotas, às vezes em baldes, até os tais três anos e pouco atrás quando tudo, supostamente, começou. Mara havia se decidido! Destino: Estados Unidos. Fora uma decisão meio amarga, dura até. Seu coração queria levá-la para a Inglaterra, pilar da cultura ocidental, portão de entrada para o mais artístico dos continentes. Inglaterra, dona de um idioma límpido e elegante (diferente de sua contra-partida norte-americana) que há muito Mara dominara em nível intermediário ouvindo Sinead, Beth Gibbons, Nina Simone, Bjork e Ella enquanto lapidava-o nos livros importados sobre Photoshop, Flash e outros aplicativos. Ela bem sabia que, infelizmente, o sucesso de seu projeto tinha endereço certo. A Inglaterra viria, quem sabe, a seu tempo...

Queria alçar seu vôo. Queria dignidade e alguma paz. Queria se expressar e por sua expressão ser remunerada. Sem saber exatamente como, portanto de forma natural, viu-se criando moda e este talento somado a outro que já havia explorado comercialmente fez nascer um atraente website. Para sua grande surpresa, fora descoberta por algumas boutiques de alta classe nos Estados Unidos, que trataram de lhe encomendar poucas peças. Da noite para o dia, viu despontar a possibilidade de realizar seu sonho dourado, largar para trás o mar de imediatismo e amadorismo provinciano terceiro-mundista ao mesmo tempo em que alcançaria a estabilidade financeira tão almejada por todas as ovelhas do capitalismo.

O visto americano era, porém, um sério obstáculo. Jovem, sem patrimônio ou curso superior, nada lhe servia de vínculos com a pátria, mãe descuidada. Pensou, repensou, concluiu! Matriculou-se em uma escola americana para estudar ESL, "English as a Second Language". Passaporte em punho, comprovante de matrícula e aceitação, dirigiu-se ao Consulado Americano para de lá sair cabisbaixa depois de ver recusado o seu pleito. E agora?! Esperar por mais 6 meses?? Assim, fez.

Parcialmente recuperada do rombo financeiro do semestre anterior, voou novamente para o Consulado. Desta vez, amparada pelo caro pacote de intercâmbio cultural que lograra estabelecer com uma família americana, depois de várias entrevistas via webcam, quando teve também a oportunidade de atestar que seu Inglês daria, sim, conta do recado. Desta feita, até ofereceu ao oficial do Consulado a opção de realizar a entrevista em Inglês. Confiança despedaçada, saiu daquele prédio em direção ao aeroporto segurando as lágrimas nos olhos. Por que lhe recusavam o visto? A pele alva, os olhos azuis e a beleza do conjunto lhe garantiam a superação de qualquer preconceito estúpido. Exceto um. Exceto aquele que ela sentia mas ainda não realizara. O maior de todos. O preconceito financeiro.

Já desempregada e com tudo pronto para a partida, teve que rearranjar os planos e tocar a vida, acumulando mais um prejuízo. A novela, que já se arrastava por um ano, levaria no mínimo mais 6 meses até que pudesse pleitear o visto novamente. Mas depois de duas recusas, sob qual pretexto ampararia o novo pedido? Caiu na realidade! Procurou. Falou daqui e dali, com fulano e beltrana. Surgiu então o nome: Dr. Belmiro.

Doutor porque era, supostamente, advogado. De título, sim. De profissão, um tinhoso, picareta e pilantra como tantos outros que assolam esta profissão em detrimento daqueles poucos éticos. Nos seus 50 e poucos anos, falava como se tivesse um ovo na boca, ou melhor, um oolllvo! "Satisfaçãumm, sou o Doooooouuutor Belllllmiro." Prestava qualquer serviço capaz de encantar os desavisados, com suas soluções mágicas. Dono de tanta sabedoria e traquejo, ostentava um escritório de merda no centro da cidade. Não tinha sequer uma secretária. Na falta dela, colocava a filha de 16 anos para atender ao telefone quando precisava mascarar uma infra-estrutura fantasma para terceiros.

Tudo acertado, o tal Doutor, cobrou de Mara, R$4.000,00 por sua especializadíssima "consultoria". Ela, buscando sucesso, de boa fé seguiu à risca as instruções do falsário. Passados os 6 meses, vejam só, fez-se seguir para o Consulado, desta vez não mais o Americano, mas o Canadense, através de despachante, um calhamaço de documentos. Não apenas o país de destino era outro, mas também a pleiteante transformara-se. Mara tornara-se uma jovem extremamente bem-sucedida, ou melhor dizendo, exageradamente bem-sucedida... no papel. Casa própria, automóvel, terreno. Tudo comprado com o generoso salário da Belelpe Recursos Humanos, uma das empresas do Grupo Belllllmiro SA, onde era Analista de RH há mais de dois anos. Diploma Universitário em mãos, ao lado dos gordos extratos bancários e declaração de Imposto de Renda. Segundo o pulha, os interessados, estes que contactassem o Ministério da Educação e Cultura - MEC ou a Secretaria da Receita Federal - SRF ou até mesmo que ligassem para o Banco Itaú para conversar com o gerente da conta de Mara. Tudo, tudo, tudo "quennnnte", afirmava ele.

O raciocínio era simplório mas soava lógico e eficaz. Mara solicitaria um visto de turismo Canadense, mais simples de se obter. Com o visto em mãos, solicitaria o Americano já com o endosso Canadense. Ansiosa, aguardou por dois infindáveis dias o resultado que foi, obviamente, negativo. Perturbadíssima, foi tirar satisfações com o Doutor. Porém, Dooooooutor que é Doooooooutor, não deixa por menos e não seria uma "garotinha" do interior que iria mudar tão sagrada regra. Saiu de lá R$2.500,00 mais pobre, com a obrigação de dirigir-se pessoalmente ao Consulado Canadense para contestar a recusa e deixar "o resto" com ele, que o Dr. Phodão resolveria tudo com o Consulado.

Novas taxas, vôos e táxis. Passou um dia inteiro no Consulado Canadense quando recebeu o veredicto: Visto negado! Motivo: "Foi impossível comprovar a veracidade das informações prestadas pelo pleiteante".

O desespero e a promessa de um futuro melhor tornaram a bela mulher uma escrava do "se". Cegamente, Mara depositava, mês após mês, a esperança de ver tudo magicamente se transformar pelas mãos infalíveis de seu salvador, Dr. Belmiro, e junto com a esperança, o dinheiro. R$300,00 aqui, R$200,00 ali, R$800 acolá. Rápida e obviamente, viu sua pequena economia, aquela que lhe sustentaria alguns meses nos Estados Unidos até que conseguisse se estabelecer no ramo de moda, esvaecer-se, secar-se, da mesma forma que o corpo da dona. Os pretextos do advogado, cada vez menos elaborados, mas todos em prol do estabelecimento de um histórico que permitiriam à Mara obter seu visto de entrada nos Estados Unidos em poucos meses eram infindáveis.

Assim seguiu por vários meses, até tornou-se prata da casa. Figurinha reconhecida no hall de otários do Dr. Belmiro, cuja filha já tratava por "Marinha". Quanto mais aumentava a esperança, mais endividada ficava. Depois de 7 pedidos de visto negados, chegara enfim o dia pacientemente esperado pelo Dr. Belmiro. Mara entrou no escritório e aos prantos declarou a falência e implorou ao pilantra auxílio para safar-se do pior. Gentil cavalheiro, abriu-lhe o leque de opções: agiotas, venda da carteira de identidade e cpf, dentre outras pérolas.

Contraiu uma dívida de R$30.000,00, a juros estratosféricos junto a um agiota indicado pelo doutor. Nem dos juros daria conta, quiçá do principal! Ainda assim, qual dependente química, continuava às voltas no escritório do Dr. Belmiro. Aproximava-se o aniversário da filha do perverso, 18 anos. Mara, tonta, ainda se deu ao trabalho de comprar presente para a "amiga", com dinheiro de empréstimo.

Imediatamente atestada a incapacidade de arcar com o pagamento da dívida e temendo as pesadas represálias desta gente inescrupulosa, Mara correu para o Dr. Belmiro em busca de nova salvação, ao que escutou: "Minha filha, você sempre disse que gostava muito da Inglaterra. Pois bem, para lá entrar não há necessidade de visto. Tenho uma pessoa "minha" lá. Eu lhe garanto um emprego de garçonete em um bar, com moradia e tudo. Você já virou família! Vou comprar seu débito e você acerta comigo semanalmente. Vai ganhar em libras... daqui a pouco fica tudo acertado e você não me deverá mais nada! Farei isto para lhe "ajudar", porque gosto muito de você."

O Dr. Cafetão, havia oportunamente se esquecido de esclarecer que o tal bar era na verdade uma boïte de stripers e que como garçonete, não era exatamente bebida o que Mara iria oferecer aos clientes. Aos prantos, ela explicou sua situação que fez o Doutor ainda mais alegre por poder comprar por apenas mais R$15.000,00 reais e uma passagem aérea internacional, algo como dois ou três anos a mais da carne de Mara. Por baixo, pensava ele, deduzida a receita de seu parceiro na Inglaterra, Mara lhe renderia umas 1.000 libras por semana, ou seja, uns R$4.500,00 que multiplicados por uns 6 anos de cafetinagem chegariam a quase um milhão e meio de reais... nada mal!! A casa em Angra dos Reis estava garantida...

A data de aniversário da filha do bandido era também a data do embarque de Mara. As duas encontraram-se no aeroporto. Mara entregou à moça seu presente e disse: "Espero que goste, você vai precisar! A Inglaterra é muito fria nesta época do ano." A moça abriu o pacote e viu o belo casaco. Agradeceu e depois de um longo abraço que só duas confidentes podem entender, sorriu e partiu. Fez o check-in com a passagem cedida por Mara e desapareceu seguida pelo olhar atento de sua benfeitora, sala de embarque adentro. Mara encaminhou-se para outro balcão e fez também seu check-in. Desembarcou em LAX, Aeroporto Internacional de Los Angeles, onde apresentou seu passaporte Europeu, comprado por 2.500 libras de um funcionário do Consulado Espanhol em Londres. Tudo via Internet!!! Primeiro-mundo é outra coisa!! Tudo funciona direito!! Até patifes têm ética!

Faz já alguns meses que o Doooouuutor Beeelllllmiro tenta convencer seu associado da Inglaterra a lhe devolver a filha, que com tanta juventude, rapidamente tornou-se o "carro-chefe" da boïte. Mara vive em West Los Angeles, tendo se sustentado modestamente neste período com os R$30.000,00 restantes, aproximadamente US$10,000.00 gentilmente "cedidos" pelo "Dr. olha só quem é o otário", enquanto trabalha com afinco nos designs arrojados, mas elegantes de suas roupas.

Ah!!! Sim... o suspiro baixinho, a estranha ausência de pânico, uma certa dose de auto-estima. É que hoje é o "The Day After", o primeiro dia após a cerimônia do Oscar em Hollywood, onde Jennifer Lopez estreou um dos modelitos de Mara. O dia promete ser longo...

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