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8:40, qualquer rua do Brasil
Bam, bum, bum, bam!! Vinha da rua. Barulho assustador
de batidas, pancadas fortes, estruturais. Daquelas que se sente
antes mesmo de se ouvir. Em uma fração de segundo,
ignorando o joelho inchado de sua última "aventura",
ele deu um pulo da...cadeira rumo à janela, resultado de uma equação simples que rondava silenciosa e persistente em sua cabeça desde que havia se hospedado naquele estranho apartamento, há dois meses atrás:
Rua íngreme + barulho de motor diesel + pancadas estruturais
= acidente feio!
Do quarto andar, tinha uma visão parcial da rua logo a sua frente. As copas das maltratadas árvores e outras construções de topos obtusos bloqueavam a visão. Instintivamente, olhou para a direita de onde se originavam os últimos sons deflagradores e também onde nascia o morro, destino "newtonianamente" irreversível de qualquer corpo desgovernado. Para surpresa ainda maior, viu formar-se rapidamente uma imensa nuvem de poeira que em não mais de 5 segundos elevou-se a aproximadamente 15 metros e expandiu-se por outros 100, num rastro ovalado, rua abaixo. Era branca. Poeira fina que flutuava no ar até cair suavemente, repousando e cobrindo seu destino num manto que trazia consigo reminiscências da neve de outrora que talvez, naquele mesmo instante, estivesse cobrindo o lugar que para ele havia se tornado lar.
Poeira branca. Branca feito... cal! Reconstituiu os fatos dos últimos 10 ou 15 segundos. Algo importante havia lhe escapado. O quê? Os sons, respondeu mentalmente. O que havia de errado ou anormal neles? Sons de pancadas, graves, vibrações. Mas mesclados a eles, pequeninos sons agudos... sons alegremente irritantes ou seriam irritantemente alegres? Realizou e soltou: "Puta que o pariu!!!!"
Qual em engenharia reversa, varreu toda sua linha de visada da direita para a esquerda até onde lhe permitiam os obstáculos.
8:41, naquela rua do Brasil
Taaammm... era a terceira vez que ele houvia o toque.
Taaammm...
Longos segundos.
Taaammm...
Taa_ _ Fez-se ouvir:
- "Polícia Militar, Rosileeeene"
- "Por gentileza, eu gostaria relatar um acidente em frente
a minha casa. Moro na rua Morros Claros, 1953 no bairro do Padre.
Meu quarteirão é muito íngreme e um caminhão
carregado com cal desceu desgovernado. No caminho, atropelou alguém,
imagino, pois estou vendo um corpo estendido no asfalto, imóvel.
Atingiu e derrubou um poste em frente a um jardim de infância
que agora está seguro apenas pelos cabos de alta tensão.
O pátio da escolinha estava repleto de crianças pois
me lembro de ouvir seus gritos. Pelo barulho, deve ter colidido
ainda várias vezes antes de parar, mas não consigo
ver daqui."
- "Só um momento, por favor."
Fuck!
Fucking shit de merde!
- "Senhor."
- "Pois não."
- " Senhor, a vítima está viva?"
- "Não sei. Estou vendo tudo do 4º andar do meu
prédio, pela janela. O corpo parece imóvel."
- "Um momento.".............. "Senhor?"
- "Sim!"
- "O senhor está socorrendo a vítima?"
- "NÃO!! Já disse! Estou em minha casa! Algumas
pessoas estão se aproximando da vítima para socorrê-la."
- "Um momento, por favor.".................... "Senhor?"
- "Pois não!"
- "O socorro que está sendo prestado à vítima
está sendo feito por uma equipe de resgate?"
- "O que?!?!? Não!!!! Por transeuntes!! Você acha
que eu estaria ligando prá você se houvesse um esquadrão
de resgates aqui?? O acidente acabou de acontecer! Aliás,
pelo tempo que estou aguardando na linha, deve ter uns 5 minutos!"
- "Está bem, Senhor. Um momento, por favor."
.....................................................................................
"Senhor?"
- "SIM!"
- "Por favor, ligue para 192 e solicite o atendimento de resgate
para a vítima, depois volte a nos ligar que qualquer um dos
atendentes ficará feliz em registrar a ocorrência
para o Senhor."
Desligou. Correu para a área de serviço. Olhou para baixo e viu uma loira tomando banho de sol ao lado da piscina. Inabalável. Olhou para céu azul e bradou: "PAÍS DE MERDA!!!!!!!!!!! PAÍS DO CÚ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!"
9:45, na rua desgraçada
Sirenes. Veículos dos Bombeiros dando passagem aos de passeio, ao invés do contrário. Olhou da janela e viu dois oficiais de resgate que subiam o morro a pé, a passos de tartaruga, conversando. Finalmente, chegaram até à vítima.
10:15, no bairro que um dia foi do padre
Finalmente, chegou a cerra-elétrica. Os bombeiros puderam, enfim, começar o resgate do motorista dentre as ferragens. Algo que ele não vira de seu ponto de observação.
Já adequadamente vestido, desceu. Na rua, só escutou pessoas narrarem a outros o acontecido, em Português vulgar, como quase vítimas que escaparam por pouco! Bem sabia ele que toda a parte da rua sob seu campo de visão estava vazia na hora do acidente, mas agora, dezenas de quase-mortos surgiram.
As emissoras de TV já estavam lá, dramatizando o que já era dramático.
11:05, no caos de cal
Dois oficiais do Corpo de Bombeiros vinham subindo. Suas faces apreensivas. Lá embaixo, a cerra-elétrica ainda combatia os metais contorcidos em busca da liberdade do motorista. Tudo isto era, supostamente, o melhor que se podia esperar das Forças Oficiais, já que o bairro do Padre era domínio da classe média alta.
Ele decidiu interpor-se ao caminho dos Bombeiros para inquirí-los sobre a situação, caso se materializasse a oportunidade. Porém, quanto mais perto eles chegavam, mais clara ficava a gravidade de suas expressões. Decidiu então esquivar-se, para não atrapalhar, quando então ouviu dos dois:
- "Quem é que vai limpar esta merda??
Tem cal prá todo lado! A prefeitura que mande os lixeiros!
- "Sei não Capitão... acho que vai acabar sobrando
prá gente! É foda!!"
Pensou: Foda mesmo!
Triste.
Triste mesmo o acontecimento. Chocante.
Ate hoje a lembranca mais forte e a das criancas gritando e correndo do patio. O fato de que esse acidente poderia ter ferido mortalmente um grupo delas e horrivel.
Beijos amore...
Iara | 16/03/2006, 13:20
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