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brazucas: guerra de atritos

Leonardo | 04 Janeiro, 2004 13:22


South Beach, Miami – FL
Domingo, 20:00hs

Em um desses vários condomínios residenciais de classe média habitado por várias nacionalidades, um americano segue em direção à lavanderia, dessas operadas por cartões de débito restritos aos moradores. É verdade que o custo é mais alto que o das lavanderias de rua, mas o simples fato de não ter que carregar sacos de roupa pelos...passeios já paga a pena. Em seu pensamento, a torcida para que ao menos uma secadora de roupas esteja disponível. Ele sabe que agora é um dos horários de pico na lavanderia e considerando o número idêntico de lavadoras e secadoras oferecido, o gargalo sempre fica nestas últimas que levam o dobro do tempo das primeiras para terminar seu ciclo. O resultado, óbvio: cestas de roupas lavadas aguardando sua chance nas secadoras. Seria sorte, muita sorte mesmo encontrar duas secadoras disponíveis para suas duas trouxas de roupa que, pela hora, acabaram de bater. Ah… tudo bem… uma única secadora já seria um ótimo negócio!

Já nem mais surpreso com sua sorte, ou falta dela, checou os relógios de todas as secadoras que trabalhavam incessantemente e notou que duas delas terminariam o ciclo em 17 minutos. Voltou para seu apartamento satisfeito com a previsão de secar toda sua roupa de uma só vez.

20:15 hs, na lavanderia

Quinze minutos depois, lá estava ele sentado no comprido banco da lavanderia, entretido com seu celular, quando ouviu as duas máquinas se desligarem. Daqui a pouco chegarão os donos das roupas para liberar as máquinas, pensou.

Chlop, chlop, chlop… vêm cantando o chinelinho… Entra uma loira pintada (segundo consta, um pleonasmo, já que loira é sempre pintada e loura, natural), de bunda fenonemal e ele já conhecedor pensa com seus botões: brasileira… Ele se levanta em direção às secadoras presumindo que a tal condômina liberaria uma das máquinas, mas ao vê-la inerte, pergunta:
— "Are any of these yours?"
— "Nouuu… Ai nidi uan machin…"
— "Yeah, I know… me too… that’s why I’m waiting here."

Sentou-se novamente e começou a revisar os compromissos da nova semana em seu PDA ao mesmo tempo em que pensava: É… não vai ter jeito, terei que secar tudo na mesma máquina… dois ciclos… duas horas… Enquanto isto, a loira tira da lavadora sua trouxa de roupas molhadas, coloca no cesto de plástico, põe este sobre o balcão e vai embora para seu apartamento. Ele sabia que se fizesse o mesmo, poderia perder sua vez na fila. Conferindo o relógio viu que já se havia passado 10 minutos desde que as duas secadoras pararam, mas onde diabos estavam os donos das roupas para dar vez aos demais?

20:35 hs, ainda na Lavanderia

Chlop, chlop, buááá… Entram a loira e outra brasileira carregando um bebê no colo, conversando em bom volume e agitadamente naquele idioma que ele não conhecia. Como se sabe, a união faz a força e o inconsciente coletivo, a estupidez. A mãe do bebê fala para a loira:
— "Ahh nem, minha filha! Você acha mesmo que vou ficar aqui esperando??? Fala sério, vai! Não quero nem saber!!"
Enquanto falava, tratou de abrir a secadora e meter as mãos na roupa alheia. Puxou o cesto que estava em cima da máquina e nele jogou um emaranhado de panos. Sobra no chão uma calcinha, já gasta, aspirando por sua aposentadoria. Ambas se entre-olham… a loira:
— "Que nojo!"
— "Não tem problema, minha filha… a gente pega a calcinha da folgada… olha isto! Só americana mesmo prá usar um coador destes!!! Sabe… americano é tudo esquisito… tudo manso… outro dia, eu vim tirar minha roupa da secadora e encontrei tudo revirado dentro do cesto… se eles fazem comigo por que eu não posso fazer com eles??"

Ao ver a mãe jogando roupa molhada prá dentro da secadora, a loira tomou coragem para assumir em público aquilo que já era sua praxe no anonimato. Correu o outro cesto, abriu a segunda secadora desligada e pôs-se a esvaziá-la. Já colocando a própria roupa na secadora, falou quase exaltada, como quem faz coisa errada conscientemente mas fala firmemente mais para si mesma que para os outros, justificando-se e perdoando-se:
— "Olha, não é meu feitio mexer nas coisas dos outros, mas assim não dá! Não posso ficar esperando prá sempre! Tenho que trabalhar amanhã!"
Enquanto abarrotava a secadora com roupas junto da nova 'amiga', a mãe reconheceu nas mãos da loira um lencinho verde e rosa. Semanas atrás, quando encontrou sua roupas bagunçadas no cesto, tratara de abrir a secadora onde elas supostamente deveriam estar, na ânsia vã de identificar o agressor e lá vira o tal lencinho “verde e rosa da mangueira”. Mordida de raiva, tendo identificado a impetuosa de dias atrás que agora fazia-se hipocritamente de santa, tratou de arrematar:
— "E olhe, a descarada, sem-vergonha que meteu as mãos na minha roupa não se deu ao trabalho sequer de esperar dois minutinhos!!! É… eu cheguei aqui **d_o_i_ s** minutinhos depois da secadora parar e minha roupa já estava toda jogada no cesto!"
A loira percebeu o tom exageradamente agressivo da 'amiga' e para acalmá-la resolveu desviar a conversa para o 'bebê lindinho' que ela tinha. Foi neste momento que viu aquele conhecido babador que semanas antes ela havia pego do chão enquanto esvaziava uma secadora. Pensou: Que absurdo!! Que vaca!! Dois minutos uma óva!!!

20:40 hs, na lavanderia carregada de raiva

A loira passa ao lado do americano carregando o cesto com roupas, sabe-se lá de quem, que acabara de tirar da secadora e justificando-se a esmo, diz:
— "Ai don kerr!! Ai révi tchu uorque tchumorol!"
Ele finalmente dá por si. Levanta os olhos do PDA e percebe que foi passado para trás. Indignado, olha para as duas e bufa de raiva sabendo que nem adianta discutir… elas não vão entender nada mesmo! Ele se levanta e sai resmungando, meio que para negar, se perguntado, meio que para ter certeza de que elas escutariam:
— "Bitches! Fucking immigrants!"

20:55 hs, na lavanderia vazia

A loira, indignada por ter sido chamada de descarada e sem-vergonha e na mais profunda certeza de que aquilo tudo não passava de despeito porque ela ainda era nova, razoavelmente bonita e, bem sabia ela, gostosona enquanto que a tal mãe já havia perdido seus encantos depois daquele que, provavelmente, já nem era seu primogênito, quando deu por si já estava saindo sorrateiramente da lavanderia deixando para trás uma secadora com a porta entre-aberta.

21:00 hs, na lavanderia esquecida

Sabendo que suas roupas haviam ficado tempo demais na secadora já desligada e que por isto perderam a quenturinha boa que muitas vezes permite vestir roupas bem dobradas sem ter que passá-las a ferro, entra na lavandeira uma senhora reclamando em bom Português:
— "Ó meu Deus! Como pude me esquecer? Que droga! Agora, mais roupa prá passar! É só trabalho nesta terra! Só trabalho!"
Para sua surpresa, viu que a máquina ainda funcionava! Abriu a porta da secadora com cuidado para que as roupas não caíssem enquanto a máquina desacelerava o agito até a pausa completa. Mas aquelas não eram suas roupas!!! Olhou para a máquina ao lado, a única que não operava no momento, cuja porta encontrava-se já entre-aberta e pensou: Será que já estou caducando? Será que minha roupa está na outra máquina? Conferiu e realizou que não era este o caso, foi quando reparou no balcão um emaranhado de formas e cores familiares… lá estavam elas no cesto! O rosto esquentou de raiva e com o cesto embaixo do braço, saiu como entrou, reclamando:
— "Racinha danada esta!! Só pode ser americano!! Que ousadia!!!"
Deixou para trás outra secadora com a porta entre-aberta. Agora eram duas. Ambas desligadas por não estarem devidamente fechadas. Ambas com seus cronômetros rodando. Ambas contendo roupas molhadas…

21:50 hs, na lavanderia cansada

Entra a mãe, que ao ver suas roupas molhadas e o ciclo da secadora encerrado, jura de morte a nova ex-amiga: Mas… o que??? As roupas dela também estão aqui! Molhadas!!! Ah!!! Aquele americano safado!!! Ficou mansinho aqui o tempo todo e depois que nós fomos embora, voltou e abriu as portas das máquinas para que perdêssemos tempo e dinheiro!!!

Chega a loira para unir-se ao ódio da “amiga” nas juras de vingança contra o americano. Tão forte era a verdade acusadora da mãe que a loira até se esqueceu de sua recém maldade corriqueira. Compraram novos ciclos de secagem nas máquinas e sairam revoltadas e ameaçadoras!

23:45 hs, na lavanderia sonolenta

Entra o americano e vê que todas as máquinas estão silenciosas, prontas para atender às suas necessidades. Ele não resiste e fala sozinho:
— "Peace, at last!"
Coitadinho…

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