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Digamos que estamos eu e você numa mesma sala conversando, debatendo, nos entretendo e vangloriando. De repente, descruzo as pernas. Pára o tempo (ou seria o universo que pararia?), vem o Zé e lhe pergunta: — "Era a perna esquerda sobre a direita ou o contrário?" …Você, bom observador que é, analista da linguagem corporal e atento ao seu ambiente, responde taxativo: — "Era a perna direita que estava sobre a esquerda!"
Stop. Rewind. Você indeciso e quase ofendido vendo a paralisia do natural por uma pergunta tão banal e insignificante, responde: — "Sei lá! Acho que era a direita sobre a esquerda." Mas a gravidade lhe foge à percepção então o Zé o ilumina: — "Decida-se! Um dos dois irá morrer agora. Se você estiver certo, ele morre, se estiver errado, morre você." O instinto da auto-preservação, o egoísmo do medo e a lógica social moralista e burra que me faz projetar no Zé minhas próprias limitações que vinculam o acerto à vida e o erro à morte, fazem com que você reviva a cena em sua mente, de forma vívida, clara, detalhada. Você diz: — "Pode matá-lo. Tenho certeza! Era a perna direita sobre a esquerda."
O Zé falou: — "Vamos à prova da janela (que absurdo!)! O reality show cósmico gravou o fatídico momento que decidirá seu destino em 23 dimensões distintas (não é assim na Strings Theory?) que você vai conferir agora neste monitor (cuja imagem só tem duas dimensões… patético). Toque, maestro!"
Perplexo, você assiste minha perna esquerda descruzar-se por cima da direita. Eu sádico, nervoso e aliviado solto uma risadinha amarga e semi-histérica, socialmente preocupado em disfarçar a flatulência que embrulhou no estômago a desarmonia química do cérebro.
Você, aterrorizado com o desconhecido, respira imóvel e sente as veias pulando no pescoço. — "Mas Zé, me diga aqui uma coisa… realidade não é a nossa percepção dos fatos? Se a percepção do meu amigo aqui era de que minha perna direita repousava sobre a esquerda, e lhe era esta tão contundente verdade que ele categoricamente nela amparou a própria sobrevivência? Não era este fato, para ele, real? Não é a realidade a consciência dos eventos?" — "Mas todos vimos os fatos gravados tais quais ocorridos e ele estava errado!" Argumenta o Zé, daí pergunto: — "Você estava errado, meu amigo?" Ao que escuto: — "Sim, estava… realmente a perna esquerda estava sobre a direita..." — "E por que você acredita nisto agora? Por que esta é sua nova verdade?" — "Ora, você é cego ou idiota? Não acabou de ver a reprise? Vou morrer!" — "Então você acha que porque viu o que viu, sua realidade antes era falsa… era mesmo? Não é o reconhecimento do 'erro' somente a conscientização de uma nova realidade? O fato de você ter visto a imagem agora faz com que sua crença de minutos atrás fosse menos verdadeira, intensa ou real? A cena revista no presente faz da sua percepção passada da realidade uma ilusão? E se sim, você teria apostado sua vida em uma ilusão??!! Acho que não… Zé, você só se esqueceu de uma coisa… dentre estas 23 dimensões faltou a principal, faltou o ângulo do ponto de vista, da perspectiva do meu amigo aqui. Posso lhe assegurar que se você rodar o replay filmado pela consciência dele, verá que era minha (bip) perna direita que estava (bip) sobre a esquerda!"
O Zé tentou (bip) pensar, analisar a situação, mas sua mente (bip) estava turva, lenta e já raivosa. Daí, já emendei: — "Nem adianta querer me matar porque como você sabe, ele estava certo mas (bip) estava errado, o que implica em dois estados antagônicos, excludentes e simultâneos num único evento: o preto que (bip) é branco, o zero que é um, o sim que é não, o bip que é bip que é bip que é bip que é bip que é bip..."
Uh?!?!?!?!?! Que bosta de alarme!!!!!!! Maria, Maria, acorda!!! Mulher, sonhei que era Deus
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